
O Espelho - litografia de Guilherme de Faria
O Espelho (de Alma Welt)
A cada soneto eu me edifico,
Pouca gente pode isso compreender,
E com minha própria cara fico
E isso é, sim, de surpreender...
O soneto é o meu espelho verdadeiro
Apenas bem melhor e mais polido
Reflete este meu rosto por inteiro
E estranhamente comovido
Pois é o rosto de todos mas em mim,
Que me olho c' uma espécie de ternura
Apenas como meio e não um fim.
E se falo de mim mirando o espelho
Não me vejam numa espécie de loucura,
Mas como quem procura seu conselho...
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29/09/2016
O espelho (de Alma Welt)
O Espelho - litografia de Guilherme de Faria, 48/60, 1984
O espelho (de Alma Welt)
Também tenho um fraco pelo espelho
Que de manhã é meu primeiro conselheiro
Mas de vã bajulação muito vezeiro,
A dizer que a mim mesma me assemelho...
Quem sou eu, como é a minha figura,
Se não posso confiar nesse senhor?
Dorme aprisionado em sua moldura
E certamente me deve ter rancor...
Sempre de fácil alcance à minha mão,
Lago lânguido e falso cristalino,
Outrora de Narciso a perdição...
E eu me pergunto por quê não o descarto
Se não posso confiar nem no destino,
E o inferno, de tais flores é tão farto...
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14/ 09/2016
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Eu e o Espelho (de Alma Welt)Capcioso o espelho me convidaA penetrar no seu mundo de ilusão,Com lisonjas e carinhos de fingidaPois que mesmo incorporou minha feição.E tomada de vertigem cambaleioNa beirada desse abismo que sou euCom u'a mão na nuca outra no seioAcreditando no que sempre prometeu:"Serás bela para sempre, te garanto,Não terás melhor amante neste mundo,Narciso está de prova e me ama tantoQue lhe ofereci meu maior preito,Uma flor que é seu nome mais profundo,Como a ti reservo uma do teu jeito..."
Alma no Espelho - lito de Guilherme de Faria, anos 70O espelho e a sombra (de Alma Welt)Muitas vezes consulto a minha sombraQue é mais confiável que o espelhoQue devolve uma imagem que me assombraPela brancura e o cabelo tão vermelho,Mas também pelo cinismo e ironiaCom que responde à nota de ansiedadeQue é o cerne vital da minha poesiaPreocupada com uma única Verdade...Mas a Verdade? A quê procuro? Vou dizer:Saber da vida a oculta idéia e intençãoCom esse imenso mistério de morrer...Quanto à sombra, esta imagem mais fiel,Me acompanha como faz um nobre cãoSem me mentir nem bajular, nem ir ao léu... Ó Espelho (de Alma Welt)Vejam, nossa imagem é inconstante,Pois os anos a procuram destruir,Lentamente rumo ao Nada ali adiante,Arquitetura sempre prestes a ruir...É somente o espelho que seguraNossos traços que o Tempo desintegraE a memória restaura, cola e curaNossa imagem que já pouco nos alegra.Lago sutil e diabólico cristalQue a um primeiro Narciso foi fatal,Ó espelho, instrumento de ironia,Não me tentes com respostas lisonjeirasPois teu lago para mim são corredeirasAos meus olhos argutos de poesia....16/01/2017Através do meu espelho (de Alma Welt)
Através do meu espelho (de Alma Welt)Jamais direi a alguém o que é a vida,Somente sobre a minha quis fazê-loE se nela eu puder botar meu seloSem ser presunçosa ou presumida.Alguns dizem: faça isso, faça aquilo...Por que apontas caminhos, prepotente?A beleza não tem braços e é eloquenteA julgar pela imortal Vênus de Milo...Se eu puder falar de mim sem intençõesQue não sejam a de tocar os coraçõesSem qualquer autopiedade e sem pieguiceE sendo apenas eu, já serei tudoPara uns, por um segundo, não me iludo,Através de meu espelho, como Alice....03/10/2016______________________________
O espelho e o eco (de Alma Welt)O espelho é um amigo lisonjeiroMas não devemos nele tanto confiar.Narciso não o tem só no banheiroPois gosta de em si mesmo se banhar.Como podes confiar nesse chalaçaQue te mostra como flor enfeitiçadaSe tornando amiúde tua cachaça,E deixar tua ninfa abandonada?Báh! Quebrei os meus espelhos, não confio,Tenho medo demais do seu fascínio,Abismo onde ando sobre um fio...Antes ouvir meu Eco que me adoraMas tornou-se pedra e não escrínioQue ao abrir liberta minha pandora...Espelho meu (de Alma Welt)Diva e musa de mim mesma me tornei,Não se espantem disso assim eu declararCom essa grande imodéstia meio gay,Porque essa é a essência do cantar...Cantar o mundo como a vida do poeta,Ciente de que o mundo dorme em mimE que minha visão é que o desperta,Como a noite o aroma do jasmim...“Não terás vergonha?”- diz-me o amigo-“Estás em vias de virar a outra flor,Que se mira não na água mas no umbigo.”Mas eu, me olhando assim no verso,Vejo o mundo e não meu ser perverso,No espelho meu polido até à dor... ______________________
A Adormecida do Espelho (de Alma Welt)
A Adormecida do Espelho- litografia de Guilherme de Faria, 1976A Adormecida do Espelho (de Alma Welt)A mim mesma me vejo adormecidaSe duplico no desejo meus espelhosE desdobro-me na coisa oferecidaQue começa pelo rubro dos pentelhosE ondula na beleza tão largadaDa mulher adormecida em sua vidaComo se dormir assim não fosse nadaE o cristal não a pusesse dividida...Não sabe finalmente a criaturaQue a imagem não liberta mas cativaAquela que se doa por doçura?Aurora que se põe, pelo contrário,Traz a morte consigo embora viva,Lua que da noite deixa o ovário... ___________________________
Alma no espelho - litografia de Guilherme de Faria (do Álbum Reflexos)Alma no Espelho (de Alma Welt)Gosto de no espelho olhar minha pomba(jogue pedra quem não tiver espelhos)Pois o sol rubro de meu cabelo tombaEntre as pernas e colore meus pentelhos.Sempre fui de mim mesma enamorada(nisso a todas as mulheres sou igual)Narciso era mulher em pele errada,De Eco o engano foi proposital...
Ao meu próprio olhar e tato dá prazer
Minha pele tão alva e como seda,
Que só comigo consegue anoitecer...
Então quando principia o meu serão
Eu boto um ovo triste como Leda
De onde nasce meu horror da solidão...
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Até o Fim (de Alma Welt)
"O que faz essa velha em minha cama?
Não conheço essa senhora, assim velha...
Então corro ao espelho que me ama
E revejo a bela jovem que ele espelha."
O que dizes, meu amigo, "velha amiga"?
As roseiras que diariamente podo
Com seus espinhos propensos à intriga
Não me tratam irreverentes desse modo.
Assim falou a amiga de meu mano,
E eu ria com ligeira dor no peito,
Ao pensar: Será humor ou só insano?
Então corri pra minha cama de dossel
Para ver se havia velha no meu leito,
Se meu espelho ainda era fiel...
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13/10/2020
"Por quem os sinos dobram" (de Alma Welt)
Eu gostaria de ter sido só amor,
Sem dor, ressentimentos e ironia
Que se estes marcaram minha poesia,
Revistos quase ferem meu pudor.
O espelho da poesia não é qualquer,
Muito menos como um espelho de cristal
Lisonjeiro que devolve o que se quer,
Mas terrível, zombeteiro e quase mau.
A poesia é esse dom de solidão
E por nós os amigos vestem luto
Ou nos dão essa precoce sensação...
Pois os versos seu pacto nos cobram
Como ao Fausto a beleza do minuto
E somos vivos "por quem os sinos dobram"...
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09/05/2018
Notas
* "Por quem os sinos dobram"- Este verso célebre ( ...for whom de bells tolls...) são do poeta inglês elisabethano, John Donne (contemporâneo de Shakespeare) O poema a que ele pertence, começa assim: "No man is an island.."" Nenhum homem é uma ilha, somos todos parte do continente)...e termina : "Por isso não pergunte por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti."
*...seu pacto nos cobram/como ao Fausto a beleza do minuto - alusão ao pacto que o insatisfeito e entediado Fausto ( no grande poema dramático de Goethe) faz com Mefistófeles (encarnação do Diabo), segundo o qual se através das dádivas e poderes que o demônio lhe proporcionasse, num momento de satisfação e deslumbramento dissesse afinal "ao minuto que passa" : "Pára! És tão belo! ", o pacto cessaria, e pelo contrato ele morreria e a sua alma seria levada por Mefistófeles. Mas no final, inusitadamente Deus caloteia o Diabo (tratava-se de uma aposta de Deus com o Diabo pela alma do sábio recluso) e manda um anjo serafim sedutor em evoluções e meneios despertar a luxúria do diabo na hora da saída da Alma do corpo de Fausto, distraindo-o com sua beleza adolescente e tentadora, O serafim se aproveita da distração e escamoteia a Alma de Fausto levando-a para o céu. Deus, que perdera a aposta... ludibria o Demônio.
O espelho e o poema ( de Alma Welt)
Pensei mudar minha vida ou ir além,
E fazer da minha lavra um testemunho,
Pois que da alma mesma ela provém
E as sementes caem do meu punho.
Mas não queria estar sozinha tão somente,
Pensando o mundo ou fruindo dos prazeres
Já que a alma não é auto-suficiente,
E o espelho não é ponte entre os seres.
Mas se todos nos espelhos nos miramos
Para ver como é que Deus nos fez,
Nem por isso nosso Ser capturamos...
E o poema tem bem mais acuidade:
Nele enxergo melhor e em nitidez,
Que Narciso no seu lago de vaidade...
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10/10/2017
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As três Perguntas (de Alma Welt)
De onde venho eu, que tão sem rumo
Vivo como se meu caminhar levasse
A algum lugar, além do prumo
Que já se esperaria a quem andasse?
E saberei quem sou, chegada a hora?
O espelho ou um oráculo me dirá?
O enigma do Eu e do agora
Terá a solução? Deus me dará?
Para onde irei, se o céu nós temos
E o Inferno, arremate de absurdos
Do purgatório, já que este conhecemos?
Tais perguntas permanecem sem respostas
Como o nosso gesticular aos surdos
Ou como espelho cego a quem te mostras...
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04/09/2017
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Razões do Claustro (de AlmaWelt)
Deus recomendou-nos este claustro
Não foi o Mefistófeles, podes crer,
Pois este induzia um certo Fausto
À esbornia, ao delito e ao prazer.
E se te desagrada a quarentena
É porque nunca tu paraste pra pensar.
Se bem que pensar só concatena
Com quem já tem bife pro jantar....
Então voltamos ao estado original:
Se sais da toca e vais caçar talvez te salves.
Sempre um leão por dia ou um chacal...
A vida é luta, já dizia o índio velho
No Y-Juca-Pirama do Gonçalves. *
Tanta sabedoria, e mal me espelho...
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23/04/2020
Nota*Y-Juca-Pirama do Gonçalves-
No outrora famoso poema Y-Juca-Pirama, de 1851, do poeta romântico indianista Gonçalves Dias, o velho cacique diz:
Não chores, meu filho
que a vida
é luta renhida
viver é lutar.
A vida é combate
que aos fracos abate
E aos fortes,
aos bravos,
só pode exaltar.
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Aferição (depoimento) (de Alma Welt)
Quantos erros cometi na juventude!
Quantas dores inúteis, mágoas, quanta...
Causadas pela mera incompletude,
Solidão essa que a gente mesma planta.
Nasci velha e pra ser jovem demorei;
Sofria a dor da morte antecipada,
Que no pacote parecia vir, que herdei,
Meras lousas na colina, hoje nada.
Um dia afinal olhei no espelho
E vi a minha face destinada,
Além do meu cabelo tão vermelho,..
E então iria aferir, dia por dia,
Se não o sentido da jornada,
Beleza que nos passos se escondia...
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15/07/2018
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Os risos perdidos (de Alma Welt)
"Os poetas são tristonhos, Deus me livre!"
Assim se expressou a minha irmã
Quando eu era pequena, uma manhã,
E foi como um choque que então tive...
Não! Meus dias seriam muito alegres,
Escreveria uma Ode à Alegria
E gatos pretos não daria, mas só lebres,
"Não serei uma chorona", eu disse... e ria.
O tempo passou, vieram os mortos
Então voei, viajei para outros portos
E levei comigo sua lembrança...
Então voltei e me olhei no espelho,
Meu cabelo ainda era vermelho,
Mas meu riso não era o da criança...
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27/06/2018
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Cristo nos espelhos (de Alma Welt)
Tinha tantas providências a tomar,
Como pôr a casa em ordem, por exemplo,
Me compor como se fosse me casar
Mas fazendo do meu corpo o próprio templo.
Assim perdi meu tempo em ninharias
Sem me dar conta um só momento,
Orbitando o espelho das marias
Madalenas antes do arrependimento...
Mas eis que vi um quadro do Van Gogh
Um belo autorretrato tão intenso
Que por um instante fiquei grogue
E vi que ele era o Cristo dos espelhos
Como em todos nós, mas nele imenso,
E me pus diante da Arte, de joelhos...
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20/04/2018
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O Lobo no armário (de Alma Welt)
O poeta é um enganador quase perverso,
Reverte suas pegadas de tal sorte
Que como um perseguido, faz o inverso:
Indo ao sul mais parece ir ao norte.
As palavras são essas impressões,
Deixadas no musgo das florestas
Apontando à ilusórias direções,
Enquanto escapamos pelas frestas.
Nunca vá para onde aponta o teu poeta,
O seu recado é pra ser lido ao contrário
Como um espelho, não como uma seta,
E a cada olhar veremos nova ruga.
Afinal se trata sempre de uma fuga
Da Morte, ancestral lobo no armário...
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30/12/2017
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Primavera fria (de Alma Welt)
Primavera tristonha em seu começo...
Como me faz lembrar outras, passadas,
E malgrado um ou outro vão tropeço,
Uma infância feliz, das mais amadas...
Manhã gelada, mas clara, auspiciosa,
Em que saio de um casulo de invernada
Como noturna, deslocada mariposa
Em lúcida manhã, meio ofuscada...
Quero viver, reviver, tudo de novo,
Insaciável de vida e de experiências
Num contato ainda vivo com meu povo...
Mas levanto, me dirijo ao meu teclado,
Meu virtual espelho das vivências
De um tempo mais real... abandonado.
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01/10/2017